O Desenrola 2.0 surge como uma nova tentativa de reduzir o endividamento das famílias brasileiras, promovendo a renegociação de dívidas e buscando ampliar o acesso ao crédito. Ao mesmo tempo, especialistas apontam a necessidade de avaliar seus efeitos de longo prazo sobre a saúde financeira dos consumidores.

Para analisar os impactos do programa, conversamos com Sérgio Assunção Monteiro, doutor em Engenharia de Sistemas e Computação e professor da ESPM Rio de Janeiro. Sua linha de pesquisa abrange sistemas de redes complexas, Big Data, Ciência de Dados e Inteligência Artificial.

A seguir, ele responde às principais questões sobre o Desenrola 2.0.

O uso do FGTS no consignado e no Desenrola pode comprometer a proteção do trabalhador?

Sérgio Assunção Monteiro- O uso do FGTS para abater dívidas resolve um problema imediato de liquidez, mas compromete seriamente a resiliência financeira do trabalhador.

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O superendividamento no Brasil não é fruto do acaso ou de um mero descontrole individual. Ele é uma falha sistêmica impulsionada pelo excesso de ambição do mercado e pela falta de freios na oferta de crédito.

Ao comprometer o FGTS, o mercado financeiro acaba engolindo a última rede de proteção dessas famílias. Na prática, isso deixa o indivíduo totalmente exposto a eventos extremos, como, por exemplo, um choque inflacionário abrupto que dispara o preço dos alimentos no supermercado ou um problema de saúde inesperado na família, que exige gastos fora do orçamento.

Sem essa reserva do FGTS, qualquer flutuação ou imprevisto empurra o trabalhador para um poço de vulnerabilidade ainda mais profundo.

O novo Desenrola 2026 tem potencial para reduzir de forma relevante a inadimplência no país?

    Sérgio – Ele gera um alívio de curto prazo, mas é insuficiente para uma redução estrutural. A dinâmica do crédito no Brasil funciona em um ciclo de retroalimentação vicioso. A concessão agressiva e sem controle alimenta o endividamento, que gera a inadimplência sistêmica.

    O Desenrola trata o sintoma, mas não a causa. O problema é que as instituições financeiras continuam utilizando modelos de score clássicos que subestimam sistematicamente o que chamamos, na pesquisa, de risco de cauda pesada.

    Para facilitar o entendimento, é como se os bancos usassem uma previsão do tempo que diz que furacões financeiros só acontecem a cada mil anos, quando, na verdade, na nossa economia, essas tempestades e crises acontecem com uma frequência muito maior.

    Eles fecham os olhos para o risco real em nome do lucro imediato. Para quebrar esse ciclo de forma relevante, a regulação precisa frear essa ambição desmedida e exigir modelos que realmente enxerguem a complexidade e a realidade do país.

    Quais são os principais benefícios do programa para consumidores e instituições financeiras?

      Sérgio – Para o consumidor, o benefício central é a tentativa de resgate do mínimo existencial, aliviando o comprometimento brutal da renda e reduzindo os graves impactos psicológicos e familiares que esse sufocamento financeiro causa.

      Para as instituições financeiras, o programa limpa o balanço ao recuperar um dinheiro que já era considerado perdido.

      No entanto, o verdadeiro benefício para o mercado deveria ser o aprendizado. Ter 80% das famílias endividadas não é obra do destino, é o resultado matemático de um sistema que cobra juros de 400% ao ano e opera com falta de controle rigoroso.

      A janela do Desenrola deve ser uma oportunidade para que o mercado adote sistemas de crédito mais éticos e adaptativos, parando de lucrar sobre a vulnerabilidade que ele mesmo ajudou a construir.