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O setor de saúde e as lições da pandemia COVID-19

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Entrevista com a CEO do Hospital da Baleia Simone Rocha Libânio.

Acionista – Quase dois anos se passaram desde a eclosão da pandemia COVID. Como a senhora descreveria o momento inicial?

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O início da pandemia foi assustador, sob o prisma pessoal, pois meu marido foi contaminado. Tive muito medo, mas busquei coragem para enfrentar o que era preciso, apesar das incertezas e da insegurança. Já no âmbito institucional, a área da saúde nunca vivenciou algo similar. O conhecimento científico mundial foi desafiado, face ao total desconhecimento sobre a real situação da doença e seus desdobramentos. Houve a necessidade de mobilização imediata dos profissionais do setor para entender o que ocorria, revisar o planejamento rapidamente e fazer gestão de três variáveis críticas: custos, níveis de estoques e receitas.

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Acionista – Como essas três variáveis se comportaram?

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No que concerne aos custos, houve a majoração imediata e especulativa dos preços dos insumos e equipamentos da saúde. Os preços das máscaras descartáveis com filtro, por exemplo, se elevaram em mais de 3000%, logo após o início da pandemia. Os níveis de estoque dos insumos nacionais e importados foram afetados pelo aumento expressivo da demanda emergencial, bem como pela escassez de oferta de princípios ativos produzidos na China, Índia, Indonésia e Malásia. E por fim, as receitas caíram com a retração das cirurgias eletivas; procedimentos por parte dos convênios de saúde e de pacientes foram suspensos.

Acionista – Com a deflagração da pandemia, como a sociedade e o mercado reagiram?

As reações contrárias aos aumentos abusivos de preços mobilizaram a sociedade, devendo ser destacada a atuação do Ministério Público. Com a passagem do tempo, os preços foram caindo, devido às pressões sociais e organizacionais. A própria indústria conseguiu, com o tempo, atender às necessidades da população e do setor de saúde. Os preços ainda não retornaram ao patamar anterior àquele do início da pandemia, mas tem havido redução. Para insumos de mercados monopolistas, é difícil negociar reduções de preços maiores.

Acionista – Como o Hospital da Baleia enfrentou aqueles momentos iniciais?

Ficamos assustados, mas nos organizamos para superar o momento. A equipe do Hospital da Baleia, com indicadores de operação críticos, sabedora de que as próximas compras seriam feitas com valores muito maiores, mobilizou a sociedade e seus parceiros, incluindo o SUS, buscando recursos em dinheiro, insumos e equipamentos. Felizmente, pudemos arrecadar e o balanço de 2020 foi positivo. Esta é a síntese do que passamos no momento inicial. Não foi fácil, mas conseguimos enfrentar a grande incerteza inicial, com o apoio de parceiros que têm grande confiança em nosso trabalho.

Acionista – Como a senhora avalia a atuação do Baleia, de forma mais ampla?

Novamente, é preciso destacar a importância das parcerias, fundamental para enfrentar a pandemia. Um de nossos principais aprendizados é que existe solidariedade institucional, ágil, quando existe confiança na seriedade de quem se propõe a servir. Percebemos como a marca Hospital da Baleia é forte em Minas Gerais. Ademais, tivemos a honra e nos sentimos gratificados de ser reconhecidos pela Prefeitura de Belo Horizonte, que considerou o Baleia referência no atendimento a pacientes dialíticos com suspeita e diagnóstico de COVID, cujos tratamentos, críticos, não poderiam ser interrompidos. É importante dizer que vários hospitais se tornaram referência em diversas frentes do atendimento à população, ao longo da pandemia.

Acionista – O ano de 2022 chegou. Como a senhora percebe o momento presente?

Primeiramente, temos que reconhecer que a vacinação no Brasil, iniciada em janeiro de 2021, tem criado resultados muito positivos. E o retrato da pandemia em nosso País, no início de 2022, registra bons avanços na redução dos níveis da doença, em sua maior parte decorrentes da vacinação. Pode haver dúvidas sobre a eficácia e os efeitos das várias vacinas criadas, sobre o seu tempo de desenvolvimento, mas é fato concreto que a vacinação tem ajudado a reduzir mortes e a tranquilizar a população. Outro ponto importante é que o conhecimento agregado pelo setor de saúde. E não apenas sobre vacinas e tratamentos, mas sobre como enfrentar a COVID nos hospitais e demais centros de saúde. Aprendemos muito sobre como trabalhar em situação de pandemia. Acumulamos bom conhecimento técnico e administrativo.

Acionista – E como a senhora percebe as tendências futuras?

Nossa percepção sobre o futuro, considerando a vacinação e o aprendizado até aqui acumulado, além do que virá adiante, é positiva, mas todos teremos que fazer muito mais. A pandemia COVID expôs a forte e cruel desigualdade social no Brasil e no mundo. Temos que repensar profundamente as formas pelas quais as nossas respectivas organizações operam, buscam objetivos, sejam privadas ou não. É preciso construir um futuro incluindo em nossas agendas temas como ESG (Environmental, Social and Governance), os quais precisam ser internalizados pelas empresas e demais organizações, inclusive aquelas com o perfil do Hospital da Baleia. Conforme dissemos anteriormente, uma das principais lições da pandemia COVID é que existirá, sim, solidariedade institucional, se existir confiança na seriedade de quem se propõe a servir.

RI – O que a senhora entende que deve ser adotado por organizações que operam no setor de saúde?

Primeiramente, é preciso existir planejamento robusto, ágil, flexível e com bons indicadores. Planejamento nos moldes dos antigos manuais de planejamento estratégico não mais atende às necessidades organizacionais. Destacamos, em seguida, a importância dos parceiros e de sua confiança no trabalho da organização, que advirá de boa governança, com transparência, prestação de contas e outros atributos. Na sequência, citamos os protocolos de saúde, baseados em melhores práticas e nas especificidades de cada organização; afinal, boas práticas ajudam a fazer melhor com menos recursos. Para isso, é indispensável orientação técnica segura, além de humanística. E enfatizamos também a comunicação intensa com os colaboradores. Com mais de 1.100 colaboradores, era preciso nos comunicar, alinhar, realinhar, continuamente. Foram muitas as reuniões, boletins, vídeos e outros instrumentos usados para enfrentar a pandemia. E por fim, citamos os bons projetos, imprescindíveis para renovar a organização e seus processos.

RI – E quanto ao que deve ser evitado?

O pânico é o primeiro elemento a evitar em uma situação como a de uma pandemia. Temos que buscar, a um só tempo, coragem e serenidade, por vezes, em meio ao caos. Outro elemento a ser evitado é o desalinhamento da equipe: é preciso existir real comprometimento com o que precisa ser feito. Adicionalmente, aproveitamos para reforçar os elementos citados na pergunta anterior, sem os quais, o trabalho tornar-se-á muito mais difícil. E por fim, pensamos positivamente, acreditando que muito provavelmente as organizações do setor de saúde não desaprenderão o que foi aprendido com a pandemia, não perderão o conhecimento acumulado. Trata-se de uma memória a ser preservada e de soluções que precisam ser internalizadas e aperfeiçoadas. Dificilmente o futuro repetirá o passado – esta é a nossa crença.

RI – A seu ver, o que a pandemia COVID ensina ao governo brasileiro?

O direito à saúde está contido em nossa Constituição Federal, é um direito fundamental, e cabe ao Estado brasileiro assegurá-lo aos brasileiros. Destacamos aqui dois pontos relacionados ao Estado: suas parcerias com as organizações da área de saúde que querem servir ao povo (e não apenas na seara financeira), bem como boa articulação entre as várias esferas estatais na saúde, pois o Brasil é um país continental.

RI – O que a pandemia COVID ensina às organizações?

No plano organizacional, ressaltamos elementos essenciais, que não podem faltar na gestão de uma pandemia e de uma organização como o Hospital da Baleia: 1) planejamento ágil, flexível; 2) parceiros que confiam na seriedade do trabalho da organização; 3) bons protocolos de saúde, operacionalizados por profissionais sérios e com visão humanística; 4) comunicação eficaz, permanente com os colaboradores; e, 5) capacidade de criar bons projetos, buscando recursos para tal. Reforçar esses tópicos é sempre oportuno.

RI – Finalizando, o que a pandemia ensina a nós, seres humanos?

Temos, a nosso dispor, a preciosa lição do escritor mineiro Guimarães Rosa, um dos maiores do nosso Planeta: “o correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. A vida é contingente e o dia a dia requer coragem, que nos dá a experiência e o fortalecimento de princípios como justiça, ética, respeito à vida e a segurança para seguir em frente. Coragem, eis o que a vida quer de nós, como ensina o grande Guimarães Rosa.

________________________

Nossa entrevistada Simone Libânio Rocha ocupa, há sete anos, a posição de Superintendente Geral no Hospital da Baleia, em Belo Horizonte, Minas Gerais. Seu desafio é gerir o orçamento enxuto da entidade filantrópica, com mais de 300 médicos e 1.100 colaboradores, sendo 75% mulheres. Simone Rocha tem sólida formação acadêmica em economia e administração, com graduação e mestrado profissional na PUC Minas, este último em parceria com a Fundação Dom Cabral – FDC. Especializou-se em gestão estratégica e operacional de empresas do segmento de saúde, onde tem atuado, há mais de 20 anos, em instituições como Instituto Mário Penna, Hospital LifeCenter, Serviços Próprios da UnimedBH e Fundação Benjamin Guimarães/Hospital da Baleia.

Cida Hess e Mônica Brandão

Cida Hess e Mônica Brandão

CIDA HESS: Economista e contadora,especialista em finanças e estratégia. Mestre em Contábeis pela PUC/SP, doutoranda pela UNIP/SP. Atua como executiva e consultora de organizações. [email protected] / MÔNICA BRANDÃO: Engenheira, especialista em finanças e governança corporativa. Mestre em Administração pela PUC/MINAS. Atua como executiva, conselheira de organizações e professora. [email protected]

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