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Enfrentando riscos exacerbados com governança corporativa e inovação

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Entrevista com Eduardo Gomes, executivo, conselheiro de administração e integrante do conselho do Instituto Capitalismo Consciente do Brasil.

Acionista – O senhor poderia discorrer brevemente sobre sua trajetória em ESG – Environmental, Social and Corporate Governance?

Comecei minha carreira no grupo Mannesman e morei na Alemanha, um país cuja cultura é muito diferente da cultura brasileira. A convivência com alemães me impactou demais, em várias frentes. Enquanto na Alemanha havia uma consciência ecológica por mim percebida como generalizada, no Brasil, as indústrias ainda não tinham o meio ambiente em sua agenda. Percebi com clareza que o assunto era importante e deveria ser levado a sério.

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Ao longo do tempo, mesmo sem ser especialista em meio ambiente, cerquei-me de vários experts, dentro e fora das empresas onde atuei, e pude aprender muito com eles. Com o passar do tempo, o panorama nacional mudou e a análise e a mitigação de riscos ambientais se tornaram temas obrigatórios das agendas corporativas. No início, mais para cumprir exigências legais, mas, com o passar do tempo, a questão adquiriu caráter preventivo.

Tive a honra de receber um convite, recentemente, para ser conselheiro do Instituto Capitalismo Consciente do Brasil, capítulo Minas Gerais. Este é um movimento global, que emergiu nos Estados Unidos, a partir de um estudo acadêmico, com o propósito de entender como algumas empresas conseguiam manter alta reputação e fidelidade dos clientes, sem investimentos absurdos em publicidade e marketing. O que essas empresas tinham em comum? Propósitos que iam além de buscar lucro para shareholders; elas realmente se voltavam para os seus stakeholders. Aceitei o desafio do convite recebido e tenho aprendido muito. Aliás, acredito que o aprendizado nunca deve parar.

Acionista – O senhor foi o líder do comitê de sustentabilidade da Leroy Merlin. O que foi realizado sob sua liderança?

O Comitê de Sustentabilidade da empresa, que posteriormente foi denominado Comitê de Desenvolvimento Responsável, se desenvolveu significativamente com o passar do tempo. Teve início a partir de um projeto interno que partiu dos colaboradores e que tornou o desenvolvimento sustentável um dos pilares empresariais, impactando em grande medida clientes, colaboradores e a cultura de produto.

Inicialmente integrado por colaboradores que doavam seu tempo voluntariamente em benefício da sustentabilidade, o Comitê evoluiu, agregou especialistas e firmou várias parcerias de sucesso com empresas, no Brasil e no exterior. Pude trabalhar – fui privilegiado neste ponto – com pessoas verdadeiramente engajadas na causa da sustentabilidade e, ao mesmo tempo, dotadas de uma percepção pragmática da realidade, de como fazer as coisas acontecerem. Posso afirmar que a ideia de desenvolvimento responsável se integrou de verdade ao DNA da empresa, à sua cultura.

Acionista – O que a pandemia COVID-19, em sua visão, tem provocado nas economias e nas empresas?

Economistas norte-americanos desenvolveram uma metodologia destinada a calcular um índice de incerteza econômica, o qual considera três pilares: cobertura jornalística das incertezas econômicas relacionadas a políticas governamentais, número de disposições do código tributário federal definidas para expirar em anos futuros e desacordo entre os analistas econômicos como proxy para a incerteza. O índice citado pondera os três grupos de variáveis que mencionei. Os interessados podem procurar na internet informações sobreo o assunto (https://www.policyuncertainty.com/global_monthly.html).

O que a análise da evolução ao longo do tempo desse índice de incerteza citado demonstra, com grande clareza? Algo absolutamente importante para quem administra uma organização empresarial: empresas estão enfrentando níveis absurdos de riscos. A pandemia COVID-19 elevou os riscos a patamares tão altos que estes (passíveis de quantificação) e as incertezas (não quantificáveis) amalgamaram. O binômio risco-incerteza está relacionado a uma grande massa de dados, egressos de fontes do mercado de capitais, financeiro, regulatório e adicionados à força das redes sociais e às fake news.

Acionista – Sendo assim, em um contexto de riscos exacerbados, ou melhor dizendo, de riscos que se confundem com incertezas, o que as empresas podem fazer?

O caminho é o da boa governança corporativa e da inovação. A pandemia COVID potencializou os riscos, é fato. Mas a pandemia também tornou a inovação imperativa. E quando tratamos de inovação, vem à mente a transformação digital. Desse tema, eu posso falar, pois estive à frente da transformação digital da Leroy Merlin.

Quando a pandemia emergiu, muitas lojas começaram a fechar. O que deveríamos fazer? Vender online era a alternativa à nossa frente. Acreditávamos estar preparados para o novo contexto, mas não foi bem assim. Apesar de estarmos avançados na transformação digital, tivemos problemas e gargalos de logística. Logística se tornou crucial, pois era preciso fazer os produtos chegarem até os consumidores. O boom de demanda inesperado não foi atendido em seus primórdios, mas foi enfrentado e soluções inovadoras tiveram que ser adotadas para superar o desafio.

Acionista – Se a inovação é fundamental, como fazê-la acontecer, quando se pensa em governança corporativa? Ter uma área de gestão de riscos é solução?

Fazer gestão de riscos é necessário em governança corporativa. Empresas com ações em bolsas de valores precisam, sim, mapear, mensurar, analisar, acompanhar e divulgar riscos de todas as naturezas. Todavia, em contexto de incerteza extrema, é preciso ir além das exigências regulatórias, pois a mensuração ficou seriamente prejudicada, em função da magnitude impensável dos riscos incorridos pelas empresas. Os sistemas de governança corporativa e de gestão organizacionais precisam conviver com riscos em uma escala impensável.

Em suma, governança corporativa abrange, entre outras responsabilidades, a gestão de riscos, que é essencial para a sobrevivência dos negócios, principalmente com a LGPD – Lei de Proteção de Dados em vigor e, desde agosto, com penalidades para o descumprimento. Todavia, acredito que o mais importante na jornada de inovação é a transformação humana. Inovar é muito mais do que investir em hardware, software e soluções tecnológicas. É preciso qualidade decisória, e é preciso potencializar essa qualidade nos conselhos de administração.

Acionista – Como elevar a qualidade das decisões nos conselhos administrativos?

Há diversas formas. Diversidade é uma delas. A inclusão traz a diversidade, abarcando gênero, religião, etnia, opção sexual, idade e outros temas. A inclusão é uma ferramenta poderosa e assegura que a ampla diversidade seja praticada. Questionamos muitas empresas que declaram que seus conselhos não têm diversidade, justificando-se pela contratação por competência. Pessoas que enxergam de ângulos diferentes têm que fazer parte dos conselhos, a fim de trazerem para dentro da organização a riqueza da diversidade. Conselhos diversos podem ajudar bastante no enfrentamento da incerteza.

A avaliação periódica do colegiado e dos conselheiros individuais também é uma necessidade, assim como investir no desenvolvimento dos conselheiros, no estilo lifelong learning, além da realização de learning expeditions. O desenvolvimento do ser humano – e isto também vale para os conselheiros administrativos – é muito importante.

Acionista – O que o senhor pensa sobre a adoção de cotas em conselhos de administração?

Eu já fui contra o sistema de cotas em conselhos, mas, atualmente, penso de uma forma totalmente diversa. Das 10 maiores empresas listadas na B3, a Bolsa de Valores brasileira, com um total de 101 conselheiros, menos de 20 são mulheres, um número muito reduzido. E façamos o seguinte raciocínio conceitual: imaginemos o mercado de uma empresa composto por 50% de mulheres, e que sua força de trabalho seja também integrada por 50% de mulheres. Faz sentido um conselho de administração contar com apenas 5% ou 10% de mulheres em sua composição? A meu ver, isto é incongruente e prejudicial aos negócios.

Ao mesmo tempo, gostaria de ressaltar a importância que vejo na preparação contínua do conselho de administração. Notadamente em contexto de riscos e incertezas amalgamados. O profissional que entra pode ser muito bom, mas o mundo está em constante transformação. Assim, é necessário trazer pessoas de fora, fazer reuniões externas, testar o ecossistema completo do setor em que se atua. Criar inclusão nos conselhos. E investir nas pessoas, nos conselheiros de administração.

Acionista – Retornemos ao movimento pelo Capitalismo Consciente, inicialmente citado pelo senhor. Em sua visão, quais são suas perspectivas em nosso País?

Topei o desafio de colocar minha experiência executiva a serviço do Capitalismo Consciente, entendendo que tal movimento tem absoluta coerência com os meus princípios. É muito gratificante atuar em algo que está em alinhamento com o que pensamos e sentimos. A meu ver, o interesse é grande e movimento crescerá significativamente no Brasil nos próximos meses e anos.  

Aproveito a oportunidade para convidar os leitores do portal Acionista a conhecerem o movimento, por meio do site institucional do Instituto Capitalismo Consciente do Brasil (ccbrasil.cc). Acredito que o sistema econômico precisa de mudanças profundas e que essas as mudanças podem ser criadas, em grande medida, de dentro para fora, por meio das pessoas. Os proprietários das empresas são pessoas, seres humanos, seus líderes e colaboradores idem. É mudando o modo de pensar das pessoas que melhoraremos em profundidade o status quo.

__________

Nosso entrevistado Eduardo Gomes é conselheiro de administração, com mais de 30 anos de experiência como CEO e executivo C-Level, em empresas como Leroy Merlin, EMH e Mannesmann. Tem atuado na gestão executiva bem-sucedida de projetos de planejamento estratégico, pesquisa, operações, administração financeira e liderança de equipes. Eduardo é engenheiro mecânico pela UFMG, com pós-graduação em Engenharia Mecânica pela SLV Duisburg (Alemanha) e MBA em Marketing pela FGV – Fundação Getúlio Vargas. Seu currículo ainda abrange variados cursos técnicos e administrativos, no Brasil e no exterior. Presentemente, Eduardo integra o conselho de administração do Instituto Capitalismo Consciente no Brasil.

Cida Hess e Mônica Brandão

Cida Hess e Mônica Brandão

CIDA HESS: Economista e contadora,especialista em finanças e estratégia. Mestre em Contábeis pela PUC/SP, doutoranda pela UNIP/SP. Atua como executiva e consultora de organizações. [email protected] / MÔNICA BRANDÃO: Engenheira, especialista em finanças e governança corporativa. Mestre em Administração pela PUC/MINAS. Atua como executiva, conselheira de organizações e professora. [email protected]

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