O processo de tomada de decisão de investimentos face à crise COVID-19

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No 2º semestre de 2019, quando analistas, controllers, diretores financeiros e o board se dedicavam à elaboração e aprovação do Budget 2020, mesmo em cenários mais pessimistas, a crise da COVID-19 nem passava pela imaginação das organizações.

Fonte: gráfico do site InfoMoney, em 25/5/2020.

O ano começou sem sinais da pandemia e o índice BOVESPA da B3, a bolsa brasileira, uma das mais importantes do mundo, bateu seu recorde histórico, aproximando-se dos 120.000 pontos em 23 de janeiro de 2020 (119.527,63). Porém, em apenas dois meses perdeu quase a metade dos pontos, chegando a 63.569,62 em 23 de março de 2020 e, consequentemente, voltando aos patamares de 20 de junho de 2017 (60.766,16 pontos).

Certamente, dúvidas essenciais surgem durante esta época de crise: como tomar decisões de investimento neste momento de incerteza absoluta dos mercados internacional e nacional?  Como reduzir riscos com o nível atual de desemprego, queda da demanda, retração da oferta, depressão? Como será o desempenho das empresas? Qual será o cenário pós  COVID-19?

De acordo com um conselho secular, o segredo é não colocar todos os ovos na mesma cesta, o que significa que é necessário ter diversificação para reduzir os riscos.

Além disso, as análises fundamentalista e grafista são as principais escolas de pensamento sobre mercados financeiros.

Iniciemos pela análise fundamentalista para a tomada de decisão de investimento. Esta análise é baseada nos fundamentos da empresa, que são suas informações contábeis, econômico-financeiras, encontradas no balanço patrimonial, demonstração do resultado, fluxo de caixa, capacidade de geração de caixa futuro, rentabilidade, lucratividade, posição de mercado, análise de concorrentes, previsões de balanço, resultado e caixa a longo prazo. A análise desses fundamentos, comparada aos preços das ações da empresa, determinará o investimento ou não na mesma.

Já a análise grafista ou técnica parte de dados gráficos das ações e é focada no curto prazo. São estudados todos os tipos de movimentos das ações (subidas e descidas) em gráficos, cujas oscilações podem ser definidas através de padrões harmônicos de comportamento, adotando nomes como morcego, caranguejo, tubarão, Gartley e borboleta, dentre outros. Evidenciando opadrão borboleta, trata-se de uma reversão com quatro pernas, na qual ele identifica o final de um movimento de preço, significando que entrará no mercado durante a reversão do preço. Existem duas versões: alta, compra, baixa, venda. A precisão geral é fundamental quando se trata de usar padrões borboleta, porque permite que erros sejam eliminados.

Diante da necessidade de informações, considerando tanto as características da análise fundamentalista, quanto da análise grafista, uma situação crítica foi deflagrada pela crise COVID-19, além da turbulência dos mercados: as dilatações de prazos para entrega das demonstrações financeiras findas em 31/12/19 e de informações trimestrais, conforme deliberação CVM 849 de, respectivamente, dois meses e 45 dias.

Consequentemente, diante do comportamento errático do mercado de ações citado anteriormente, com pressões internas e externas promovidas pela pandemia, o conselho é cautela redobrada. Os analistas de mercado estão sugerindo não abrir mão de investimentos de forma agressiva e imediata, diante de uma queda do mercado de ações, que já se recuperou do poço de 23 de março passado. Em 25 de maio, o índice BOVESPA fechou em 85.663,48 pontos (gráfico InfoMoney), apresentando um aumento de 34,8%.

Uma importante análise que deve ser feita por um investidor é baseada em perguntas críticas, tais como: qual é a finalidade dos seus investimentos? Sua aposentadoria seria investida com a personificação de um jovem ingressante no mercado de ações ou ela está maturada e seria considerada para saques imediatos? Suas finanças podem suportar perdas atuais para resgatar rentabilidades futuras, identificadas via análise fundamentalista? Os fundamentos que embasam seus investimentos serão completamente alterados em função do novo normal? Deve-se precificar a perda e resgatar aplicações para perder menos?

Há também a questionar os fatores externos ao controle de quem investe: como as empresas que compõem sua carteira estão se comportando neste momento da crise COVID-19? Quais são os planos de contingência dessas empresas? Como está o relacionamento com os stakeholders?

A preocupação dos analistas fundamentalistas é de que o disclousure das informações pode não chegar a tempo para tomar uma decisão adequadamente sobre manter a carteira ou vender.

Empresas que não usufruíram da postergação de prazo, concedida pela Comissão de Valores Mobiliários – CVM – na divulgação de suas informações trimestrais, optaram por não divulgar o Guidance, que é uma importante fonte de informações.

Outra preocupação com a flexibilização de prazos deliberada pela CVM, que é uma sensibilização à crise da COVID-19, a qual impôs novas condições de trabalho e organização às empresas, é o impacto da assimetria informacional entre investidores. Mas a CVM ressalta que continuam em vigor as exigências que asseguram a integridade do mercado, especialmente aquelas que coíbem o uso de informação privilegiada e a manipulação de preços.

Se a opção não é investir no mercado de ações, quais outras opções os investidores têm? Recentemente, o Banco Central do Brasil – BACEN, em sua reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM), reduziu a taxa Selic, que baliza as taxas de juros no País, para 3% ao ano, com corte de 0,75 ponto percentual. A previsão para a próxima reunião do COPOM é de redução de 0,25 ponto percentual, atingindo-se 2,75%. A expectativa de inflação (IPCA) de acordo com instituições financeiras consultadas pelo BACEN para 2020 é de 2,52%, praticamente no limite inferior da meta (2,50%).

Mesmo diante deste cenário incerto para investimentos seguros, é possível sonhar com um Brasil melhor, que seja uma potência em commodities e recursos naturais, quase 100% dono das reservas de nióbio do mundo, ainda que hoje carente de infraestrutura para fluir todo o potencial de produção e serviços. Com o novo normal, será necessário um processo de investimentos pesados em bens de capital e infraestrutura, que garantam seu desenvolvimento e transformação em potência global.

Após a crise do subprime1, desencadeada em setembro de 2007, houve uma mudança no comportamento dos investidores que, além das análises fundamentalistas e grafistas, respectivamente com foco nos ganhos de longo e curto prazos, adotaram ou intensificaram em grande medida a adoção de diferentes parâmetros para medir a performance dos negócios, incluindo a avaliação das dimensões ética e social, bem como o respeito ao meio ambiente e a padrões de governança (ESG). Essas variáveis tiveram três positivos impactos para quem as adotou:

  • demonstraram atenção corporativa a questões delicadas, como social, ética e responsabilidade;
  • melhoraram a capacidade corporativa de ser reconhecida, avaliada e premiada pelo mercado; e
  • ajudaram a reduzir a assimetria de informação, aumentando as informações disponíveis para todos os investidores, visando assim tornar os mercados mais eficientes.

Nosso objetivo, com este artigo, é contribuir para a reflexão de investidores atuantes ou potenciais sobre os riscos e oportunidades apresentados pelo Brasil e suas empresas, diante deste período crítico desencadeado pela crise COVID-19, e inclusive, já pensando no pós-pandemia. Em nossa visão, é fundamental que os investidores saibam recorrer à criatividade e racionalidade no processo de tomada de decisão de investimentos, demandando de quem administra seus ativos ética, governança, sustentabilidade e – muito importante –  gestão de riscos responsável, em prol de um mundo lucrativo, mas também muito melhor.

Fonte: 1Behavioral Issues for Sustainable Investment Decision-Making: A Literature Review – Andrea Tomo and Giovanni Landi, com inclusões das autoras. CIDA HESS: Economista e contadora,especialista em finanças e estratégia. Mestre em Contábeis pela PUC/SP, doutoranda pela UNIP/SP. Atua como executiva e consultora de organizações.
[email protected]
MÔNICA BRANDÃO: Engenheira, especialista em finanças. Mestre em Administração pela PUC/MINAS. Atua como executiva, conselheira de organizações e professora
[email protected]
Cida Hess e Mônica Brandão

Cida Hess e Mônica Brandão

CIDA HESS: Economista e contadora,especialista em finanças e estratégia. Mestre em Contábeis pela PUC/SP, doutoranda pela UNIP/SP. Atua como executiva e consultora de organizações. [email protected] / MÔNICA BRANDÃO: Engenheira, especialista em finanças e governança corporativa. Mestre em Administração pela PUC/MINAS. Atua como executiva, conselheira de organizações e professora. [email protected]

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