O Planeta tem limites: quais são os desafios da sustentabilidade econômico-ambiental e social?

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Entrevista com o professor Biaggio F. Gianetti, especialista em desenvolvimento sustentável, contabilidade ambiental e produção mais limpa de bens e serviços

Acionista – Nosso Planeta tem recursos naturais finitos. O crescimento econômico tem limites?

Sim, o Planeta Terra tem recursos não renováveis, com limites físicos, determinados pelas leis da natureza, as quais orquestram os vários ecossistemas que compõem a biosfera. Já as teorias econômico-financeiras são construções humanas, que emergem do sistema capitalista, desde os seus primórdios. Passaram a existir com os comerciantes, que circularam pelo continente europeu e criaram grandes cidades, bem como instituições como bancos e outras. E avançaram além-mar, sofisticando relações comerciais, intensificando a produção de bens e desencadeando a Revolução Industrial. Ao mesmo tempo, é preciso entender que as construções humanas são dinâmicas e dependem da confiança das pessoas em seus pressupostos. E quando novos desafios surgem, mudar pode ser imprescindível. O Planeta exige mudanças no nosso pensamento e modus operandi, em prol do desenvolvimento sustentável e do próprio crescimento econômico-financeiro.

Acionista – O que fazer, já que é preciso mudar?

Primeiramente, é preciso entender que não há, que não pode haver, separação entre o mundo empresarial e o meio ambiente. Se o Planeta tem limites físicos, e se o crescimento econômico-financeiro ameaça esses limites, os processos produtivos terão que ser repensados para continuarem gerando riquezas. Sem isso, as gerações futuras arcarão com um ônus pesado, legado pelas gerações pregressas, incluindo nós. Como evitar que isso aconteça?  Pode-se pensar em várias alternativas e uma das mais importantes é colocar em prática o conceito de desmaterialização da economia.

Acionista – O que é e como o senhor vislumbra a desmaterialização da economia?

Esta é uma das alternativas resultantes da preocupação com a preservação ambiental. É uma das respostas para o desenvolvimento sustentável de atividades econômicas. A desmaterialização da economia se baseia em educação ambiental, uso inteligente de recursos naturais, soluções tecnológicas, investimentos e prática de alternativas renováveis, que respeitem o meio ambiente ou que no mínimo minimizem os impactos nocivos ao mesmo.Adotar a desmaterialização da economia não significa que os seres humanos deixarão de produzir e utilizar produtos industrializados, ou então que deixarão de usufruir de serviços que utilizam recursos naturais. Pode-se ter uma economia a um só tempo materializada (em menor medida) e desmaterializada (em maior medida).

Acionista – Quais riscos o senhor vislumbra na desmaterialização da economia?

As construções humanas são baseadas em confiança. Novos negócios criam expectativas de ganhos futuros e a desmaterialização da economia não está livre do risco de bolhas. Entretanto, é uma alternativa importante, face ao esgotamento dos limites naturais planetários. Ao mesmo tempo, ainda há diversas perguntas sem resposta, pois estamos em processo de conhecimento, de entendimento sobre como preservar o Planeta, respeitar as pessoas e manter as atividades econômicas pujantes. Assim, é preciso dialogar, dialogar muito, fazer bons diagnósticos, criar alternativas, investir em ciência e tecnologia ter responsabilidade social. E o ponto de partida disso tudo é reconhecer os problemas, estudá-los e colocar em prática alternativas. Aliás, a pandemia COVID-19 tem criado novos problemas e precisamos enfrentá-los também. Ela deve ser compreendida no bojo da questão ambiental. 

Acionista– Como a COVID-19 pode estar associada a questões ambientais?

As pandemias resultam das nossas relações com o meio ambiente, da forma como a vida civilizada impacta o meio ambiente e desequilibra a natureza. E uma pandemia pode criar problemas novos e agravar aqueles existentes. Se as pandemias resultam do modo como nos relacionamos com o meio ambiente, e se elas impactam os negócios, destruindo muitos, cabe indagar: é possível separar os debates econômico e ambiental? Tratá-los como coisas estanques entre si? Ao nosso ver, definitivamente não.

Acionista – Quais serão, a seu ver, as principais implicações da COVID-19?

Fatos como pandemias e outros mudam as nossas vidas. Lembremo-nos dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA: os aeroportos criaram novos protocolos de segurança para quem viaja de avião. Assim tende a ser com a COVID-19. As empresas também criarão protocolos. Poderão ser afetados, por exemplo, procedimentos de contratação de pessoas e o controle da saúde das pessoas. Como serão as realidades do trabalho presencial e do teletrabalho? Como cuidar dos colaboradores, física e mentalmente?  E um aspecto adicional que destacamos, válido também para o meio ambiente, é a prevenção de futuras pandemias, que poderão ocorrer, se as nossas relações com a natureza não mudarem. Aliás, é em prol da prevenção que as regras legais preveem diferentes percentuais de preservação ambiental para distintos biomas. Para os mais vulneráveis, a exemplo da Amazônia, aumentam-se os percentuais de áreas a preservar. Existe uma precaução de se manter áreas preservadas, mesmo sem a certeza absoluta sobre sua preservação.

Acionista – Finalizando, a quem cabe a liderança para que exista uma economia a um só tempo materializada e desmaterializada, além de educativa e baseada em conhecimento? Aos governos? Às empresas e outras organizações?

Os desafios planetários são tão grandes que o esforço precisa de todos esses públicos. Representantes do estado, das empresas e cidadãos precisam ser maestros, músicos e audiência – tudo isso a um só tempo –, trabalhando conjuntamente e apreciando os resultados do esforço conjunto, como o conceito de Orquestra Societária, que vocês amplamente publicam na Revista RI. A democracia representativa é importante, mas precisamos também de democracia participativa, com diálogo permanente. As questões ambientais assim o exigem, esta é a realidade planetária. E enfatizamos: não existem receitas prontas, acabadas. Ainda que hoje tenhamos boas ferramentas que nos permitem avançar na direção certa.    

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Nosso entrevistado Biagio F. Gianetti é mestre e doutor em Ciências pela Universidade de São Paulo (USP), professor e pesquisador. É docente do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção e coordenador do Laboratório de Produção e Meio Ambiente (LaProMA) da Universidade Paulista (UNIP). Leia também sua entrevista recentemente concedida à Revista RI – Relações com Investidores.

Cida Hess e Mônica Brandão

Cida Hess e Mônica Brandão

CIDA HESS: Economista e contadora,especialista em finanças e estratégia. Mestre em Contábeis pela PUC/SP, doutoranda pela UNIP/SP. Atua como executiva e consultora de organizações. [email protected] / MÔNICA BRANDÃO: Engenheira, especialista em finanças e governança corporativa. Mestre em Administração pela PUC/MINAS. Atua como executiva, conselheira de organizações e professora. [email protected]

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