Existem paradigmas na análise de empresas pelos mercados?

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A pergunta do título deste artigo foi uma das mais interessantes endereçadas a um palestrante, em um evento realizado há alguns anos, por um pequeno grupo de potenciais investidores pessoas físicas, que desejava melhor entender como opera o mercado de capitais nacional.  

Antes de responder à pergunta do título, cabe perguntar: o que é um paradigma?

Em 1962, o doutor em física pela Harvard University, Thomas Samuel Kuhn, publicou um livro que teve imensa repercussão acadêmica – e ainda hoje tem: A estrutura das revoluções científicas. Em seu livro, o professor Kuhn apresentou seu conceito de paradigma: trata-se de uma teoria amplamente aceita pelos estudiosos de uma ciência considerada, que sustenta o desenvolvimento de ideias, leis e modelos a ela vinculadas.

Como exemplos de paradigmas, na linha do conceito de Thomas Kuhn, podem ser citados, de modo não exaustivo, os fundamentos apresentados em obras como Óptica, de Isaac Newton, Eletricidade, de Benjamin Franklin, Química, de Antoine-Laurent de Lavoisier, e Geologia, de Charles Lyell, por meio dos quais, durante certo tempo, os cientistas puderam solucionar problemas e criar métodos de pesquisas para gerações posteriores de praticantes das ciências naturais.

De acordo com Thomas Kuhn, a ciência se desenvolve por etapas. Inicialmente, um paradigma é criado por um grupo de pesquisadores ou pesquisador; por sua força intrínseca, é bem aceito por uma comunidade de cientistas. Na sequência, desenvolvem-se estudos e pesquisas com base no paradigma, bem aceito. Por fim, surgem os pontos falhos e as contestações ao paradigma, o que conduz ao desenvolvimento de um novo paradigma e a uma revolução científica. E o ciclo de evolução da ciência se repete, não de forma circular, mas em espiral.

Lendo detidamente A estrutura das revoluções científicas, de Thomas Kuhn, podemos compilar, sem esgotar as possibilidades, sete atributos para um paradigma genérico, segundo a visão desse autor, quais sejam:

  1. Universalidade – fundamenta-se em realizações científicas universalmente aceitas;
  2. Ineditismo – é original, inédito;
  3. Abertura – é amplo o suficiente para permitir pesquisas nele baseadas;
  4. Compartilhamento – passa a existir quando é compartilhado por estudiosos da ciência considerada;
  5. Validade – intrinsecamente, é tão bom que as escolas antigas gradualmente deixam de existir;
  6. Ancorabilidade – serve como referência ou âncora para o desenvolvimento de teorias e modelos, sem a necessidade de explicações sobre conceitos básicos; e,
  7. Temporalidade – não é eterno, seu tempo de existência está relacionado a sua aplicabilidade.

O livro de Thomas Kuhn originou muita polêmica nos meios acadêmicos, com destaque para as críticas egressas dos estudiosos das ciências humanas e sociais, mas não apenas. O próprio autor, físico por formação, antes de seu falecimento em 1996, tentou clarificar suas ideias por meio de outros trabalhos.

Feitas estas reflexões iniciais, perguntamos: existem paradigmas em análises elaboradas pelos mercados de capitais, quando se considera o conceito de paradigma do professor Thomas Samuel Kuhn?

A nosso ver, não, ainda que existam técnicas com algumas características de um paradigma, mas não todas, segundo o conceito de Thomas Kuhn. Se essas técnicas são compartilhadas por muitos agentes dos mercados, isto não as torna paradigmas científicos, mas práticas de mercado consagradas. A menos que definamos paradigmas de outra maneira, não associada ao desenvolvimento da ciência.    

Em tempo, há várias formas de avaliar empresas, utilizadas por analistas e profissionais de investimentos e, neste artigo, mencionamos duas, clássicas dos mercados de capitais:

  1. Análise fundamentalista – baseada em amplos estudos sobre os fundamentos de uma dada empresa, os quais culminam na estimativa do seu valor intrínseco ou econômico, que é comparado ao valor de mercado, baseado nos preços de ações. Sobre tais análises, em seu sentido mais aprofundado, sugerimos que os leitores revisitem o artigo denominado A grande importância da Área de Relações com Investidores para quem investe, publicado neste portal Acionista, no qual identificamos alguns descritores do que denominamos qualidade do ativo empresa
  2. Análise técnica ou  grafista – baseada em estudos de evolução dos preços das ações de uma dada empresa nos mercado de ações, identificando-se tendências de alta e baixa e permitindo identificar bons momentos de compra e venda de ativos.

Análises fundamentalistas e técnicas podem ser combinadas: a primeira, permite identificar se o ativo empresa está bem precificado por investidores e/ou profissionais de investimento do mercado; quanto à segunda, esta pode ajudar a identificar o momento mais adequado para a compra ou a venda do ativo que se considera. O uso combinado dessas duas técnicas pode favorecer a gestão de portfólios por seus responsáveis.

Cabe aqui, por fim, uma reflexão sobre eventos fortuitos que podem afetar preços de ativos, mesmo que se usem as melhores práticas. Recentemente, o mercado de capitais viveu um furacão, com a abrupta queda do valor das ações da Petrobras na B3, gerada pela desconfiança na ingerência do governo, que descumpriu as políticas e práticas de governança corporativa da Companhia, previamente aprovadas pelo Conselho de Administração.

Qual foi a reação imediata dos investidores e analistas, entre sexta e segunda-feira (19 e 22/02/21), com a queda das ações em mais de 22% durante o dia, fechando, respectivamente, em R$ 26,44 e R$ 20,75? Comprar, vender, investir ou não investir? Lembrando que o volume negociado durante esse curto período (2 dias úteis) teve um aumento de 81%, de R$ 5,8 para 10,5 bilhões.

O exemplo citado ensina que, se por um lado, as variáveis a ser analisadas para a estimativa do valor de uma empresa devem ser criteriosamente consideradas, isso não garante a rentabilidade esperada da operação pela análise, independentemente do método utilizado. Assim sendo, finalizamos este artigo observando que nem o melhor dos paradigmas do mercado de ações, se este porventura existisse segundo o conceito de Thomas Kuhn, poderia lidar preventivamente com um evento dessa natureza. Nossos leitores concordam?   

Cida Hess e Mônica Brandão

Cida Hess e Mônica Brandão

CIDA HESS: Economista e contadora,especialista em finanças e estratégia. Mestre em Contábeis pela PUC/SP, doutoranda pela UNIP/SP. Atua como executiva e consultora de organizações. [email protected] / MÔNICA BRANDÃO: Engenheira, especialista em finanças e governança corporativa. Mestre em Administração pela PUC/MINAS. Atua como executiva, conselheira de organizações e professora. [email protected]

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